quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Quinta-feira, 17 de março de 2016

Mariana quer se apaixonar.
Parece bobo dito assim, mas é verdade.
Mariana está louca pra se apaixonar.

Tão louca que começou a stalkear o cara que viu no bar apenas algumas vezes.
Mas , também, aquele é o cara mais bonito que ela viu nos últimos meses, talvez nos últimos anos, talvez a vida inteira.
E, talvez, ele não seja nada disso.
Mas, ela não sabe disso agora.
Já te disse: Mariana está louca!

Louca por aquele cara alto, por aqueles olhos escuros, por aquela barba pretensiosamente despretensiosa.
E por aquele olhar de desejo que ele deposita nela e que ela já flagrou algumas vezes.
Desarmada por tanta intensidade, ela nunca conseguiu corresponder sem ficar totalmente vermelha e nem sustentar o olhar por mais do que apenas três segundos deliciosos.

Hoje, ela acordou arrepiada por ter sonhado com ele.
E ficou excitada à primeira imagem dele que se formou em sua mente desperta.
Ela não sairá de casa essa noite, senão com um único propósito: ela precisa conhecer esse cara.
Trocar com ele mais do que as poucas palavras que trocaram até hoje.

Ela precisa retribuir àquele olhar.
Ouvir a voz dele próxima ao seu ouvido.
Experimentar o mínimo toque dele e tocá-lo, ainda que com a ponta dos dedos.
E sentir essa eletricidade - que quase já os toca de longe - de perto.
Mais do que tudo, ela quer que ele saiba o efeito que provoca nela.

Que ele perceba que os pelos se arrepiam involuntariamente,
que os olhos denunciam o desejo quase explodindo,
que imagine o quanto a calcinha dela deve estar molhada,
e fantasie os orgasmos explosivos que eles podem ter juntos.
Ela quer que ele sinta o efeito que provoca nela.

Ela quer levar esse efeito ao extremo.

Mariana quer se apaixonar.
E gozar.
Apaixonadamente.
Enlouquecidamente.




terça-feira, 16 de agosto de 2016

De passagem

Eu sempre me soube sozinha. Eu sempre me soube passageira.

E agora percebo que isso é um ponto de um contexto muito mais complexo: Eu não compreendo a longevidade como parte integrante das coisas.

Em minhas inúteis tentativas de visualizar o futuro ao longo da vida, nunca consegui prever algo num espaço enorme de tempo. "Como você se vê daqui a cinco anos? " É um exemplo de pergunta cuja resposta eu nunca consegui formular.

Adapte essa incapacidade de projeção a uma situação onde se inclua um relacionamento e ... o resultado será o mesmo.
Nunca consegui visualizar o futuro de uma relação, salvo por alguns pequenos lapsos semi-copiados de um companheiro empenhado. Uma imitação ruim da convicção alheia.

Não trago isso  como um problema, veja bem. Pra mim, é apenas uma constatação.

Se ao mesmo tempo, questiono a fugacidade das coisas, por não querer de modo algum ser uma pessoa superficial, por outro lado, não creio na manutenção de situação alguma por um grande período de tempo.

Não que isso indique realmente um trato pouco profundo, pelo menos eu acho que não trago as coisas no raso. Pelo contrário, eu gosto de intensidade, anseio por ela e tento extrair experiências consistentes das interações que tenho com o mundo e com as pessoas.

Mas, encaro a mudança, a necessidade de um recomeço, como algo inevitável.

E falar sobre isso assusta. Geralmente, as pessoas julgam que esse modo de ver as coisas me torna alguém que sairá correndo na primeira dificuldade. Acredite, é exatamente o contrário. E não há nada de contraditório nisso.

Eu acredito que se as coisas têm prazo pra acabar, é preciso extrair de qualquer experiência o máximo que ela pode te oferecer. Justamente por não saber quanto tempo ela pode durar. mas, não como alguém que chupa freneticamente uma laranja e cospe o bagaço. E sim, como alguém que saboreia cada pedacinho, pois cada porção é única e, sim, em algum momento, vai acabar.





sexta-feira, 22 de julho de 2016

"Quanto de mim eu aplico naquilo que eu faço?"
Essa é uma pergunta que me persegue o tempo todo.

Somos constantemente bombardeados por duas correntes distintas: a primeira que diz que devemos nos entregar, que devemos aplicar corpo e alma nos trabalhos que realizamos, que devemos nos doar por inteiro aos nossos relacionamentos - sejam eles de qualquer natureza - e que devemos buscar a satisfação e o crescimento pessoal em tudo. Essa é a posição bonita, a ser defendida em público, nos eleva quase automaticamente à categoria de pessoa interessante, de espírito elevado, com um quê de misticismo e mistério. É a corrente do "deixa a vida me levar".*

Tudo muito lindo, muito poético, rende gifs compartilháveis no instagram, posts bonitos no facebook. Mas, quanto disso é verdade?

A outra corrente - essa que realmente acorrenta - é a que não costumamos expressar publicamente. Você sabe, não pega bem dizer que o medo faz você pensar duas vezes antes de mandar aquela mensagem no meio da noite, em deixar aquele trabalho que você não gosta mas que dá segurança - afinal há contas pra pagar - em explicitar os sentimentos pra alguém que você sabe que não sente o mesmo, etc, etc, etc. E "vai meu bloco, tristeza e pé no chão..."*

E enquanto as correntes te puxam ora pra um lado, ora um pro outro, enquanto você quase se parte ao meio sem saber pra onde pende, as perguntas não param.

Quanto do que você faz por espontaneidade é confundido com inconsequência e repreendido (até por você mesmo, intimamente, às vezes)?
Quanto da sua inconsequência você atribui ao seu espírito destemido?
Quanto do que você não faz é por prudência ou medo do ridículo?
Ou, ainda, quanto os olhos dos censores ainda te limitam enquanto você chama a isso "autopreservação"?

Quanto de você traduz aquilo que você realmente quer ser?

Porque eu não sei se encaro essa vida como passista ao som frenético da bateria. Aliás, eu queria ser a a rainha da Bateria! Ou, se "eu sambo direitinho, assim, bem miudinho" porque eu sei que é mais fácil de um "você" genérico gostar...

Acho que se eu pudesse definir o ritmo da minha evolução nessa Avenida, ela desceria a ladeira, capotando, rolando e rindo. Mas, o freio da inadequação me avisa que a escola precisa de uma paradinha, às vezes, antes de retomar o ritmo frenético.

Ps.: E o samba apareceu por aqui, meio sem ser convidado, mas, samba é a melhor música pra alegria, pra tristeza...pra qualquer coisa, enfim.

sambas citados aqui:
1 - Deixa a vida me levar - Zeca Pagodinho
2 - Tristeza e Pé no Chão - Armando Fernandes
3 - Cabide - Mart'nália


segunda-feira, 9 de maio de 2016

Sou você

Alguém me disse quando eu era criança - sei que foi algum parente, mas realmente não me recordo quem foi -  que eu não chorava de verdade, porque as lágrimas não escorriam pelo meu rosto. Eu era muito pequena, mas isso, de algum modo, me magoou a ponto de eu não esquecer.

E, no dia do velório do meu pai, eu me lembro de ter pensado que naquele momento eu estava chorando o tal choro de verdade pela primeira vez. As lágrimas escorriam sem esforço nenhum. Eu tinha 5 anos de idade e estava sentada ao lado da minha mãe.

De lá pra cá, eu me tornei uma chorona. Dessas que têm lágrimas demais, dessas que choram só de imaginar alguma situação triste. E eu sempre chorava imaginando a mesma coisa: que um dia eu iria ficar sem minha mãe. Assim como já tinha ficado sem meu pai. 

Eu tinha pesadelos recorrentes na infância e sempre acordava chorando. E não falava sobre eles com ninguém. E era sempre a mesma coisa: a minha mãe não estava mais lá. 
Minha mãe tinha morrido, minha mãe tinha sumido, eu me perdia dela de algum modo....

Eu cresci pensando nisso. Eu penso nisso quase todos os dias. E sempre que eu penso eu choro. Semana passada mesmo, chorei no ônibus voltando do trabalho pra casa. 
Eu acho que nunca vou conseguir expressar de verdade o que a minha mãe significa pra mim.

Ela segurou a barra da nossa infância, da nossa perda, da nossa dificuldade financeira, dos sonhos de uma vida desfeitos, do flagelo emocional enorme que sofremos. Nós seis. Ela, eu, e meus quatro irmãos. Só nos seis sabemos como foi. Como é.


Mas no meio desse caos, algumas coisas emergiram. E enquanto eu crescia, eu pude enxergar que minha mãe era a pessoa mais forte que eu viria a conhecer na vida. E eu ainda não sabia, mas eu queria ser igual a ela. Em várias coisas.

Ela podia não saber direito o que fazer, mas ela descobria um modo e fazia. Ela podia estar morrendo de medo e assim mesmo ela ia. Era uma ausência de opção, é verdade. Ela não sentia que poderia recorrer a outra pessoa naquele momento. Aquela era a vida dela. Aqueles eram os filhos dela. Aquela responsabilidade era dela. 

Mas, claro que ela precisou de ajuda e sempre teve humildade pra aceitar e para retribuir como podia. Minha mãe tem um coração bom. O melhor que eu já vi. Com ela eu aprendi sobre humildade, respeito e gratidão, dentre tantas outras coisas.

Eu não percebi até a idade adulta o quanto eu me tornava cada vez mais um reflexo dela. Demorei pra ter a percepção de que quanto mais o tempo passava, mais eu reproduzia a figura dessa mulher que era meu exemplo de vida. Minha mãe fez de mim a pessoa independente que hoje eu me orgulho de ser. E também modelou a pessoa frágil - que eu às vezes tento disfarçar que sou - e que reconheci nela com o passar do tempo. 

Tem uma música da Maria Gadú que sempre me faz lembrar dela: "de todo amor que eu tenho, metade foi tu que me deu...". Mas, não foi só o amor. Foi muito mais. Foi esse conjunto inteiro que a gente absorve inconscientemente, muito mais através dos exemplos do que dos conselhos.

Minha mãe me apoiou nos meus momentos mais difíceis. Mesmo quando aos olhos de todos os demais, eu parecia estar errada. Esteve ao meu lado, mesmo quando teve que ir contra os próprios conceitos de certo e errado. Me incentivou a seguir meus sonhos mesmo quando os meus planos me levaram para longe dela. E a nossa relação só se fortaleceu ao longo do tempo. 

Minha mãe não me vê como sua menina, me vê como uma mulher por quem ela fez o melhor que podia e cujas opiniões ela respeita mesmo quando não concorda com elas.

Se eu pudesse, hoje eu colocaria a minha mãe no colo, eu a protegeria de todo mal - ou tentaria, assim como ela fez comigo. Ela sabe como eu brigo por ela. Mas, o que talvez ela não saiba é que ela fez de mim uma mulher tão forte que não briga mais consigo mesma.

Obrigada, mãe, por sendo quem é, fazer de mim quem eu sou. Não há presente que eu te dê no mundo que seja capaz de representar o amor que existe entre nós e a gratidão que eu sinto por tudo que eu sou e que é tanto do que você é. Cada realização minha é uma realização sua. Te amo! 


PS.: A música a que me refiro é "Dona Cila".
PS 2.: E é claro que eu não consegui escrever esse texto sem chorar. 
Mês passado...

E, às vezes, meia hora depois de um tanto falar eloquentemente e racionalmente, eu me pego chorando de modo compulsivo, porque não sei de verdade o que falei. E não sei realmente porque chorei.

E me questiono sobre esse tanto questionar, esse pensar indefinidamente, esse tanto querer racionalizar, verbalizar... nessa tentativa inútil de controlar os sentimentos.

Eu, que ainda há pouco também recordei sobre o quanto o falar pode não-significar...