segunda-feira, 9 de maio de 2016

Sou você

Alguém me disse quando eu era criança - sei que foi algum parente, mas realmente não me recordo quem foi -  que eu não chorava de verdade, porque as lágrimas não escorriam pelo meu rosto. Eu era muito pequena, mas isso, de algum modo, me magoou a ponto de eu não esquecer.

E, no dia do velório do meu pai, eu me lembro de ter pensado que naquele momento eu estava chorando o tal choro de verdade pela primeira vez. As lágrimas escorriam sem esforço nenhum. Eu tinha 5 anos de idade e estava sentada ao lado da minha mãe.

De lá pra cá, eu me tornei uma chorona. Dessas que têm lágrimas demais, dessas que choram só de imaginar alguma situação triste. E eu sempre chorava imaginando a mesma coisa: que um dia eu iria ficar sem minha mãe. Assim como já tinha ficado sem meu pai. 

Eu tinha pesadelos recorrentes na infância e sempre acordava chorando. E não falava sobre eles com ninguém. E era sempre a mesma coisa: a minha mãe não estava mais lá. 
Minha mãe tinha morrido, minha mãe tinha sumido, eu me perdia dela de algum modo....

Eu cresci pensando nisso. Eu penso nisso quase todos os dias. E sempre que eu penso eu choro. Semana passada mesmo, chorei no ônibus voltando do trabalho pra casa. 
Eu acho que nunca vou conseguir expressar de verdade o que a minha mãe significa pra mim.

Ela segurou a barra da nossa infância, da nossa perda, da nossa dificuldade financeira, dos sonhos de uma vida desfeitos, do flagelo emocional enorme que sofremos. Nós seis. Ela, eu, e meus quatro irmãos. Só nos seis sabemos como foi. Como é.


Mas no meio desse caos, algumas coisas emergiram. E enquanto eu crescia, eu pude enxergar que minha mãe era a pessoa mais forte que eu viria a conhecer na vida. E eu ainda não sabia, mas eu queria ser igual a ela. Em várias coisas.

Ela podia não saber direito o que fazer, mas ela descobria um modo e fazia. Ela podia estar morrendo de medo e assim mesmo ela ia. Era uma ausência de opção, é verdade. Ela não sentia que poderia recorrer a outra pessoa naquele momento. Aquela era a vida dela. Aqueles eram os filhos dela. Aquela responsabilidade era dela. 

Mas, claro que ela precisou de ajuda e sempre teve humildade pra aceitar e para retribuir como podia. Minha mãe tem um coração bom. O melhor que eu já vi. Com ela eu aprendi sobre humildade, respeito e gratidão, dentre tantas outras coisas.

Eu não percebi até a idade adulta o quanto eu me tornava cada vez mais um reflexo dela. Demorei pra ter a percepção de que quanto mais o tempo passava, mais eu reproduzia a figura dessa mulher que era meu exemplo de vida. Minha mãe fez de mim a pessoa independente que hoje eu me orgulho de ser. E também modelou a pessoa frágil - que eu às vezes tento disfarçar que sou - e que reconheci nela com o passar do tempo. 

Tem uma música da Maria Gadú que sempre me faz lembrar dela: "de todo amor que eu tenho, metade foi tu que me deu...". Mas, não foi só o amor. Foi muito mais. Foi esse conjunto inteiro que a gente absorve inconscientemente, muito mais através dos exemplos do que dos conselhos.

Minha mãe me apoiou nos meus momentos mais difíceis. Mesmo quando aos olhos de todos os demais, eu parecia estar errada. Esteve ao meu lado, mesmo quando teve que ir contra os próprios conceitos de certo e errado. Me incentivou a seguir meus sonhos mesmo quando os meus planos me levaram para longe dela. E a nossa relação só se fortaleceu ao longo do tempo. 

Minha mãe não me vê como sua menina, me vê como uma mulher por quem ela fez o melhor que podia e cujas opiniões ela respeita mesmo quando não concorda com elas.

Se eu pudesse, hoje eu colocaria a minha mãe no colo, eu a protegeria de todo mal - ou tentaria, assim como ela fez comigo. Ela sabe como eu brigo por ela. Mas, o que talvez ela não saiba é que ela fez de mim uma mulher tão forte que não briga mais consigo mesma.

Obrigada, mãe, por sendo quem é, fazer de mim quem eu sou. Não há presente que eu te dê no mundo que seja capaz de representar o amor que existe entre nós e a gratidão que eu sinto por tudo que eu sou e que é tanto do que você é. Cada realização minha é uma realização sua. Te amo! 


PS.: A música a que me refiro é "Dona Cila".
PS 2.: E é claro que eu não consegui escrever esse texto sem chorar. 

2 comentários:

Unknown disse...

Que lindo Dirlene, sua mãe (que é minha tia) é uma mulher admirável. Lembro dela e de vocês tão pequenos quando tio João morreu e sempre me pergunto de onde tia tirou tanta força? Gosto de pensar que foi do grande amor que existia entre eles e;que de certa maneira seu pai estava lá velando por ela e cuidando de vocês. A distância não permitiu uma maior convivência entre nós mas, a história de tia Luzia me marca até hoje e eu a admiro tanto. Grande beijo prima.

Unknown disse...

Que lindo Dirlene, sua mãe (que é minha tia) é uma mulher admirável. Lembro dela e de vocês tão pequenos quando tio João morreu e sempre me pergunto de onde tia tirou tanta força? Gosto de pensar que foi do grande amor que existia entre eles e;que de certa maneira seu pai estava lá velando por ela e cuidando de vocês. A distância não permitiu uma maior convivência entre nós mas, a história de tia Luzia me marca até hoje e eu a admiro tanto. Grande beijo prima.